quarta-feira, 9 de setembro de 2015

‘SE O MEU BAIRRO FOSSE VERDE’: ENCAIXE DE IDEIAS

Série de reportagens que mapeia projetos sustentáveis pelo mundo

O prédio do Masdar Institute, o primeiro a ficar pronto em Masdar City, Abu Dhabi. Ali, novas tecnologias para produção de energia renovável vêm sendo pesquisadas 

Lixo que sai dos prédios via sucção. Edifícios cobertos por jardins ou painéis solares. Calçadas no nível das ruas. São muitas as peças para montar o quebra-cabeça que torna um bairro sustentável. Diante das experiências que vêm sendo feitas em diferentes países, o Morar Bem publica a partir de hoje a série de três reportagens "Se o meu bairro fosse verde". Em todos os casos, há críticas — menos ou mais graves — quanto ao teor de sustentabilidade dos projetos. A rara participação da comunidade é uma delas. Outra: sistemas de transporte que não atendem a premissas básicas. No Brasil, falta de investimentos públicos é um dos alvos. Neste domingo, mapeamos bairros que foram planejados como verdes. No próximo, será a vez de exemplos de reconstrução. Na última edição, contaremos como ficaria um bairro do Rio, queridinho dos cariocas, se ganhasse ares sustentáveis.
O número de projetos para bairros sustentáveis tem crescido na última década. Entre 2000 e 2012, começaram a ser erguidos novos bairros pelos quatro cantos do mundo, cheios de propostas diferentes e também polêmicas. O que mais se destaca é o Masdar City, que está sendo desenvolvido em Abu Dhabi. No Brasil, o Noroeste, em Brasília, e o Pedra Branca, na Grande Florianópolis, merecem destaque, mas geram debates entre especialistas.
O Green Building Council Brasil (GBC) formou um comitê técnico para criar um referencial para bairros sustentáveis com características que vão da eficiência energética à infraestrutura viária e de serviços; do gerenciamento de resíduos à produção local de alimentos.
— Um bairro sustentável envolve várias questões: mobiliário urbano, proximidade de trabalho e escola, ciclovias, transporte. O ideal é que tenha ruas fechadas para pedestres, que gere a própria energia com sistemas fotovoltaicos ou eólicos, por exemplo, que não tenha trânsito — diz Marcos Casado, gerente técnico do GBC Brasil.
Além disso, esses bairros devem ter edifícios certificados, fácil acesso a todo tipo de serviços, empregos permanentes, ruas arborizadas. O aspecto social também é muito importante: é preciso que a vizinhança abrace todas as classes. Esse é, talvez, um dos grandes defeitos da maior parte dos projetos. Mas, se ainda não temos um projeto totalmente sustentável, os exemplos mostram que estamos a caminho. 

BEDZED

O primeiro bairro em larga escala planejado para ser sustentável no Reino Unido completou 10 anos em 2012. Tempo suficiente para algumas certezas: a meta de não emitir carbono não foi alcançada, mas os moradores estão muito mais próximos do ideal de sustentabilidade que a média do país. Usam 81% a menos de energia para aquecer suas casas, reduziram o uso de eletricidade em 45% e da água em 58%. Carros, desencorajados no bairro, circulam 64% menos que no resto do Reino Unido. Além disso, 60% de todo o lixo produzido ali é reciclado e o consumo de alimentos orgânicos, uma prática para 86% dos habitantes.
Esses índices são resultado das premissas criadas pela empresa especializada em sustentabilidade BioRegional e o escritório de arquitetura ZedFactory ao planejar o bairro. A energia consumida é produzida no próprio condomínio, tanto por meio de placas fotovoltaicas, quanto por uma mini-estação que usa madeira para produzir o aquecimento das casas. A localização dos prédios também foi pensada para reduzir o consumo de energia. Fachadas de vidro triplo permitem entrada de iluminação natural ao mesmo tempo que bloqueiam o calor. Telhados verdes ajudam no isolamento térmico. Além disso, o sistema de ventilação utiliza a energia do vento para fazer circular ar fresco pelos imóveis.
No setor de transporte, várias medidas foram tomadas para encorajar o morador a abandonar os carros particulares. A principal delas está na essência do bairro, que mistura residências, escritórios e serviços, permitindo que quem more ali não precise percorrer grandes distâncias para trabalhar, fazer compras ou estudar. Além disso, meios de transporte público fazem ligações rápidas e diretas com vários pontos de Londres.

NOROESTE

Para ter o bairro como endereço fixo é preciso estar atento ao manual verde do residente. Ali, os moradores receberão a partir de outubro deste ano, data provável de conclusão dos primeiros empreendimentos, orientações sobre obras em casa. Além disso, ficarão a par de restrições como a proibição do chuveiro elétrico. Desenhado pelo arquiteto Paulo Zimbres e desenvolvido pela Companhia Imobiliária de Brasília, a Terracap, o projeto, que saiu do papel em 2009, ainda prevê a coleta de lixo por sistema de sucção.
A urbanização prevê extensa rede cicloviária, mas não esquece do automóvel e oferece o dobro de vagas para estacionamento, se comparado às superquadras do Plano Piloto de Brasília. Seu foco são as classes média alta e alta. A previsão é que as unidades habitacionais no bairro custem pelo menos R$ 8 mil, o metro quadrado. Atributos que esbarram em princípios da sustentabilidade, como mostra a professora Ângela Maria Gabriella Rossi:
— Melhoria urbana em termos de sustentabilidade significa dar acesso a todas as faixas de renda.
Outro fator que chama a atenção de especialistas é a escolha do local: uma área de lençol freático. Mas o responsável pelo projeto, o arquiteto Paulo Zimbres, afirma que antes de desenvolver o desenho, foi feito estudo de impacto na área.
— Fizemos um estudo cuidadoso sobre a região e nos apoiamos em projetos de certificação Leed para assentamentos urbanos — diz Zimbres, acrescentando que o plano paisagístico, por exemplo, foi todo desenvolvido com plantas nativas, o que, segundo Ângela Maria Gabriella, é considerado difícil de se encontrar nas cidades brasileiras.
Se a sustentabilidade guiou o projeto por um lado, por outro foi orientado pelo desenho das superquadras do Plano Piloto. O que, confessa Zimbres, prejudicou alguns pontos que poderiam ser considerados sustentáveis:
— O Noroeste deveria na forma e no espírito ser compatível com o Plano Piloto. Dessa forma, não pudemos propor outra disposição para os edifícios de acordo com a insolação e os ventos.

 PEDRA BRANCA

Numa área de antiga fazenda da Grande Florianópolis, agora em perímetro urbano, começaram a ser construídos, em 2000, prédios e centros comerciais verdes. Indústrias não poluentes também começaram a se instalar por ali. Hoje, o bairro Pedra Branca já é habitado por mais de cinco mil pessoas. Ele deve estar concluído em 2030, para receber 50 mil. O plano urbanístico, que contou com consultoria do arquiteto Jaime Lerner, terá piso elevado nas travessias, para permitir o fácil trânsito de pedestres e drenagem para garantir ao local rápida secagem e a recarga do lençol freático.
O projeto inclui calçadas largas, 35 quilômetros de ciclovias e 25 metros quadrados de área verde por habitante, o dobro do recomendado pela ONU. A ideia é que o morador possa ter acesso a comércio, escola, trabalho e casa em no máximo 15 minutos de caminhada.
— O Pedra Branca foi projetado com o pensamento no pedestre — explica Valério Gomes, presidente do Pedra Branca Empreendimentos Imobiliários, incorporadora responsável pela execução do projeto.
Mas nem tudo é verde no Pedra Branca. Estar a 18 quilômetros do Centro de Florianópolis também não é sinônimo de sustentabilidade. A distância, que ocorre com muitos desses bairros, é um dos principais motivos de crítica.
— Muito do que é vendido como bairro sustentável consome espaço de área periurbana, desmata e exige que cada família tenha veículo próprio — destaca Ângela Maria.

MASDAR CITY

Uma das áreas que talvez mais se aproxime do ideal da sustentabilidade é Masdar City, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. A quase cidade vem sendo construída desde 2008 e pretende ser uma das mais sustentáveis do mundo. Claro, Masdar também tem defeitos. Um deles: não houve participação da comunidade na elaboração do projeto.
Quanto ao planejamento urbanístico, cada detalhe foi muito bem pensado. No quesito energia, Masdar gera boa parte do que precisa. Nos telhados dos prédios, haverá placas fotovoltaicas para captar a energia solar. Além disso, foi criado o que eles chamam de "fazenda solar", área de 22 hectares com 87 mil desses painéis, que eliminará 15 mil toneladas de emissão de carbono (o equivalente a tirar 3.300 carros das ruas).
Cada um dos prédios foi projetado levando em conta a incidência solar e dos ventos e obedecendo a critérios de construções inteligentes com redução do consumo de água e gerenciamento de resíduos. E uma característica que faria muita gente por aqui torcer o nariz: os elevadores ficam quase escondidos enquanto as escadas estão bem às vistas.
Para que o pedestre seja o dono das ruas, em Masdar elas serão quase sempre estreitas e carro particular não entra ali. E nem será preciso já que haverá transporte público de excelência, feito por ônibus elétricos e pelo PRT (Personal Rapid Transit), sistema que consiste de pequenas cabines individuais também elétricas, como os carros dos Jetsons, e não precisam de motorista. Funcionará como um sistema de táxi, com paradas predeterminadas.
Mas seu grande diferencial é o investimento no desenvolvimento de novas tecnologias e na pesquisa de energia renovável. Tanto que o primeiro prédio a ficar pronto no local foi o Masdar Institute, um centro de pesquisa ligado ao MIT.
— Infelizmente, nem todo mundo pode criar uma Masdar City, mas acho que o mundo deve começar a investir em retrofits, a desenvolver os grandes centros para o futuro — conclui o diretor de Masdar City, Alan Frost.

Por Ystatille Freitas e Karine Tavares
Fonte O Globo Online