segunda-feira, 17 de julho de 2017

PROFISSIONAL DO DIREITO DEVE PENSAR ONDE QUER ESTAR EM CINCO ANOS


Os antigos diziam “o futuro a Deus pertence”. Sem necessidade de polemizar sobre termos, ou não, um destino traçado previamente, não custa nada tratarmos de planejar nosso futuro. Evidentemente, sem prejuízo de aceitarmos de bom grado a ajuda divina.
Apesar de ser simpático à postura daqueles que deixam as coisas acontecerem, que improvisam e não são muito fiéis aos compromissos, o fato é que organizar-se é requisito básico do sucesso. Seja qual for a área, futebol, artes cênicas ou Direito.
Na verdade, tudo depende de qual projeto de vida se tem e aí começam os questionamentos. Resumindo todos a uma só pergunta, vale questionar-se: “Onde quero estar daqui a cinco anos?”
Esta pergunta, regra geral, é feita pelos mais jovens. Porém, nada de discriminação, vamos além dos jovens estudantes de Direito, alcançando ainda os mais maduros, os que não perderam as ilusões na longa estrada da vida, aqueles cujos cabelos embranqueceram, mas o brilho no olhar persiste.
Por que cinco anos? A resposta é simples, em cinco anos espera-se que alguém já tenha dado passos importantes em sua carreira e, se não os deu, possivelmente não os dará em 10 ou em 20.
Comecemos pelos jovens estudantes de Direito. Seja qual for o período que estejam a cursar, é importante fixar metas e cumpri-las. Imagine-se que alguém esteja no meio do curso, 5º período. Em cinco anos já terá dois anos de formado. Então, no 5º período é bom estabelecer o seguinte: a) qual o limite de suas ambições e, com base nisto, qual será a profissão escolhida? b) qual o estágio mais conveniente a tal escolha? c) se o planejamento é de 5 anos, onde pretende estar a cada ano?
A escolha, regra geral, direciona-se à advocacia, ao magistério superior ou a um concurso público.
Se a opção for de advogar, é preciso levar em conta: a) quanto tempo será dedicado ao estágio, quais os três melhores escritórios para tal finalidade e como fazer para ser admitido; b) quanto tempo será reservado para o estudo direcionado ao exame da OAB; c) qual área da advocacia será escolhida, a que, além de dar prazer, permita uma sobrevivência com dignidade; d) será tentado o ingresso em um escritório já consolidado ou será aberto um escritório próprio; e) nesta última hipótese, quanto se gastará mensalmente (aluguel, IPTU, mobília, telefone, secretária, estagiário, faxineira, água e luz); f) se for associar-se a alguém, colocar em contrato como serão divididas as despesas e os honorários, inclusive em caso de dissolução da sociedade; g) ainda em caso de sociedade, se o futuro sócio é pessoa responsável, correta, trabalhadora; h) onde e como espero estar na profissão escolhida daqui a cinco anos. 
Parte do grupo opta por concurso, geralmente por desejar mais segurança que sucesso financeiro. E aí o encaminhamento é diverso.
Em comum, todos os concursos têm o fato de que são difíceis. Não existe mais concurso fácil, todos são disputados. Por isso, seja qual for a opção, é preciso perguntar-se: a) quais serão as minhas opções de concurso? (sempre é bom ter duas ou três); b) onde devo fazer o estágio, por quanto tempo e como farei para ser admitido?; c) devo focar nas matérias mais exigidas nos concursos escolhidos?; d) quem são e o que pensam os examinadores?; e) quantas horas devo dedicar aos estudos a partir da minha formatura, a fim de concluir o exame de todos os pontos?; e) farei concursos fora do meu estado, quais os prós e os contras?; f) em quanto tempo espero tomar posse em cargo público?; g) como me sustentarei durante esse período?
O magistério superior tem despertado muito a atenção dos estudantes. A remuneração melhorou, há boas perspectivas de trabalho, principalmente no interior e na região Norte, e a Academia proporciona uma vida mais leve, não exige o combate diário comum na advocacia. Aos que se direcionam para esta área é preciso planejar e: a) além dos conhecimentos teóricos, fazer estágios para ter conhecimento da realidade; b) participar de grupos de estudos e de projetos de pesquisa (PIBIC); c) preparar um bom currículo, publicar artigos; d) participar de projetos sociais promovidos pela Universidade ou fora dela; d) habilitar-se para o mestrado, tendo em vista que tipo de pesquisa lhe desperta interesse, qual a linha de pesquisa da Universidade e qual seria o professor ideal para a orientação; e) aproximar-me dos professores que podem auxiliar neste objetivo; f) ter conhecimento de línguas para as provas; g) informar-se sobre bolsas de estudo; h) finalmente, perguntar-se como e onde quer estar 5 anos depois.
O tempo passou, o estudante se formou e já completou 30 anos. Supõe-se que esteja colocado profissionalmente. Mesmo assim, é preciso avaliar-se e programar-se. Estou feliz? Sobrevivo sem a ajuda dos meus pais? Quais minhas chances de evoluir profissionalmente? Nesta fase, fim da adolescência e início da vida adulta, é preciso empenho. Atualizar-se em curso de pós-graduação, seja especialização ou mestrado. Se estiver na advocacia, verificar as contas, o número de clientes e as perspectivas de evoluir. Nas carreiras públicas, as oportunidades de ascensão. Algumas geram frustração. O aprovado no cargo de juiz federal substituto pode sentir-se estagnado por não ter qualquer perspectiva de ser titular. Talvez seja a hora de estudar, escrever, especializar-se em alguma área, atuar na associação, enfim, fazer algo além de sentir-se vítima do sistema.
Passa o tempo bem mais rápido do que se imagina. Aos quarenta as circunstâncias são outras, muitas vezes casamento, filhos, pais ficando idosos, nos homens uma calvície prematura e nas mulheres as indesejáveis “marcas da existência”, tudo a tornar o tempo menor e as mudanças mais difíceis. Nesta fase já deve haver estabilidade profissional. Por exemplo, se estiver lecionando, já deve ter mestrado concluído, turmas organizadas, respeito na instituição, prestígio com os alunos, doutorado concluído ou à vista, participação em atividades administrativas, artigos e livros publicados. E daí mirar à frente e ver-se no futuro. Como e onde estarei daqui a 5 anos? Tenho segurança quanto à minha aposentadoria? Se não fiz plano de previdência privada, ainda dá tempo?
Após os cinquenta as coisas já estão definidas. Dificilmente alguém que não se realizou conseguirá satisfazer suas ambições. Mas isto, absolutamente, não deve ser motivo para desânimo. Um Procurador Regional da República pode aspirar e conseguir ascender a Subprocurador-geral e, em Brasília, enfrentar novos desafios e renovar-se. E será bom programar-se: a) quanto tempo ficarei lá?; b) vale a pena levar a família, tirar os filhos do seu “habitat”? Um desembargador pode cogitar de concorrer ao STJ. É uma empreitada cara e trabalhosa. Deve perguntar-se se é este realmente o objetivo de sua vida. Compensa a mudança? Se achar que sim, e se este for o pensamento de sua parceira (ou vice-versa), deve traçar um plano quinquenal, que inclui seguidas idas a Brasília, participação em congressos onde estejam os que votam, contatos políticos para eventual fase de indicação em lista tríplice e outras medidas. Se não der certo em 5 anos ou mesmo em menor tempo, partir para novos planos. Inclusive, preparar-se para a aposentadoria.
Os sessentões ainda têm muito a fazer. Nos Tribunais muitos aspiram chegar à presidência. Em alguns, a disputa é acirrada e quem vai para o embate político deve adaptar-se ao sistema. Traçar um plano estratégico, que inclui convites aos colegas, jantares, solidariedade nos momentos difíceis e atividades afins. Uma tabela de metas, com datas para consumar cada passo, é uma medida produtiva. 
E quem, da área jurídica no serviço público, chegar aos setenta anos e receber o aviso constitucional de “vá para casa”, não precisa, só por isso, entregar-se a lamúrias nostálgicas, incomodando os outros com as suas repetidas histórias. Atualize-se, entre no Facebook, procure seus velhos amigos e, se tiver fôlego, atue profissionalmente, mesmo que em serviço voluntário. Empreste toda a sua experiência em benefício de seus amigos, parentes e do seu país.
Em suma, ter planos, em qualquer idade, facilita a realização das ambições. Programá-los de forma concreta, colocá-los no computador ou em local visível, cobrar-se o cumprimento, tudo pode ser decisivo para um passo adiante e uma vida melhor.

Por Vladimir Passos de Freitas
Fonte Consultor Jurídico