quarta-feira, 17 de abril de 2024

GINÁSTICA PARA CÉREBRO

 Descubra quais são os melhores exercícios para manter a boa forma mental

Você passou parte da vida ouvindo que atividade física é fundamental para a saúde, certo? Provavelmente nunca ocorreu à maioria de nós que o cérebro igualmente precisa de malhação e, quanto mais envelhecemos, maior atenção deve ser dada às nossas conexões nervosas para ativá-las constantemente e mantê-las azeitadas, funcionando bem e melhorando nossas respostas mentais. Ou seja, muda a localização, mas o mecanismo da chamada “neuróbica”, que atua no sistema nervoso central, é o mesmo da aeróbica que bota o corpo em movimento. “Esse termo é usado quando usamos os cinco sentidos por meio de atividades não rotineiras. Este exercício tem o objetivo de manter um nível constante de capacidade mental mesmo com o passar dos anos”, explica a psicóloga Paula Teixeira Fernandes, doutora em Neurociências pelo departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).A ideia, como ela exemplifica, é que possamos utilizar várias informações sensoriais como os gestos e o cheiro de uma pessoa que acabamos de conhecer, além de guardar seu nome ou fisionomia. Assim, o cérebro terá mais elementos para “lembrar” futuramente daquela a pessoa. Esse exemplo pode ser aplicado a qualquer situação do cotidiano. Para lembrar onde ficou o carro no estacionamento, reúna o maior número de informações (número e letra da coluna, a sinalização, elevador ou escada próxima etc.). Os estímulos contribuem para a formação de novas sinapses, a comunicação que ocorre todo o tempo entre os neurônios, as células que constituem nossa matéria cerebral. É a “plasticidade cerebral”, que define as mudanças que ocorrem na estrutura ou da função no cérebro frente a um estímulo, seja ela de origem interna ou externa. Assim, a malhação cerebral está no fornecimento de estímulos contínuos, como diz Li Li Min, professor associado de Neurologia da Unicamp e doutor em Neurociências pela Mcgill University, Canadá.

Quanto mais, melhor
Essa dica de usar para expandir é a base das novas teorias expansionistas em matéria de neurônio. “Quanto mais se usa o cérebro, melhor e mais saudável ele se torna”, diz a neurocientista Suzana Herculano, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Não basta reaprender, reelaborar, raciocinar. O corpinho também participa ativamente do processo, como diz Suzana. “A prática do exercício físico ajuda a regular o mecanismo da resposta ao estresse, o que repercute favoravelmente no hipocampo, região do cérebro responsável pelas memórias novas.”
Manter-se lendo, estudando, pensando, brincando e entrando em contato com novidades contribui para permanecer com as funções cerebrais “azeitadas” em todas as idades.
O sono adequado é outro fator que contribui para mantermos o cérebro em bom funcionamento – é quando se dorme que a nossa versão de HD, disco de memória cumulativa, sofre uma faxina e se atualiza para novo bombardeio de informações. Também é necessário combater coisas que sabidamente fazem mal ao organismo, como sedentarismo, fumo e colesterol alto, todos fatores de risco para entupimentos e vazamentos nos vasos sanguíneos do cérebro. “Estes ‘derrames’ ocasionam a morte de células cerebrais e a perda de suas funções, o que gera sequelas”, afirma o neurocientista Rogério Panizzutti, professor adjunto do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e fellow da Human Frontier Science Program na Universidade da Califórnia, EUA. Ele chama a atenção para se manter o foco em exercícios que aprimorem a capacidade de captarmos as informações sensoriais básicas, como o som e a visão. É como em uma transmissão de dados pela internet: quanto melhor o input, melhor o processamento.
Atividades de lazer são importantes, como o contato com pessoas diferentes daquelas que constituem nosso círculo social. “Quando estimulamos áreas cerebrais relacionadas ao prazer, isso repercute na saúde física e no estado emocional”, diz Paula Fernandes. Ela descreve atividades não rotineiras incentivadas pela neuróbica. Por exemplo, tomar banho com os olhos fechados, escovar os dentes com a mão não dominante (se você for destro, escove com a mão esquerda e vice-versa), usar estímulos sensoriais (no banho, por exemplo, usar aromas), ler textos em voz alta. E o mais interessante: são atividades que podem ser realizadas a qualquer hora do dia. É só ligar o cérebro para responder ao seu comando e realizá-las.

O GRANDE ACHADO: o cérebro não estaciona, ou melhor, pode nunca estacionar
No passado, se julgava que manter o hábito de ler, estudar e entrar em contato com novidades ajudava a manter as capacidades mentais por mais tempo. Claro, isso continua valendo, mas a explicação era que manter o cérebro ativo evitaria o seu “envelhecimento”. Esta associação tomava por base a hipótese de que após o término do desenvolvimento da estrutura cerebral, ao final da infância, o cérebro não teria mais capacidade de se modificar profundamente. De acordo com o neurocientista Rogério Panizzutti, este conceito começou a ser revisto a partir de 1984, quando o professor Michael Merzenich e seus colegas da Universidade da Califórnia (EUA) mostraram que o cérebro de macacos adultos se modificava profundamente após a amputação de um dedo. Esta descoberta abriu caminho para vários estudos visando entender os mecanismos envolvidos na “plasticidade” do cérebro adulto. “Extensos estudos realizados com animais de experimentação, como os ratos de laboratório, levaram ao desenvolvimento dos primeiros programas de ginástica cerebral.”, conta Panizzutti. Nos últimos anos estes programas começaram a ser testados em humanos com efeitos surpreendentes, mas permanecem no plano experimental.

Por Profª. Rita Alonso