domingo, 30 de abril de 2017

PRÓLOGO A SAGA DOS CAPELINOS

Capela - 3.700 a.C.

A estrela de Capela fica distante quarenta e dois anos-luz da Terra, na constelação do Cocheiro, também chamada de Cabra. Essa bela e gigantesca estrela faz parte da Via Láctea, galáxia que nos abriga. A distância colossal entre Capela e o Sol é apenas um pequeno salto nas dimensões grandiosas do universo. Nossa galáxia faz parte de um grupo local de pouco mais de vinte aglomerados fantásticos de cem a duzentos bilhões de estrelas, entre as quais o Sol é apenas um pequeno ponto luminoso do céu. Capela é uma bela estrela. Cerca de quatorze vezes maior do que o Sol tem uma emanação de calor levemente inferior à de nosso astro-rei. É, em verdade, componente de um sistema estelar binário, ou seja, um sistema estelar composto por duas estrelas, as quais gravitam uma em torno da outra, e, em volta delas, num verdadeiro balé estelar, há um cortejo constituído por inúmeros planetas, luas, cometas e asteróides.
Há cerca de 3.700 a.C., num dos planetas que gravitam em torno da estrela dupla Capela, existia uma humanidade muito parecida com a terrestre, à qual pertencemos atualmente, apresentando notável padrão de evolução tecnológica. Naquela época, Ahtilantê, nome desse planeta, o quinto, a partir de Capela, estava numa posição social e econômica global muito parecida com a da Terra do século XX d.C. A humanidade que lá existia apresentava graus de evolução espiritual extremamente heterogêneos, similares aos terrestres do final do século XX, com pessoas desejando o aperfeiçoamento do orbe enquanto outras apenas anelavam seu próprio bem-estar.
Os governadores espirituais do planeta, espíritos que tinham alcançado um grau extraordinário de evolução, constataram que Ahtilantê teria que passar por um extenso expurgo espiritual. Deveriam ser retiradas do planeta, espiritualmente, as almas que não tivessem alcançado um determinado grau de evolução. Elas seriam levadas para outro orbe, deslocando-se através do mundo astral, onde continuariam sua evolução espiritual, através do processo natural dos renascimentos. No decorrer desse longo processo, que iria durar cerca de oitenta e quatro anos, seriam dadas oportunidades de evolução aos espíritos, tanto aos que já estavam jungidos à carne, como aos que estavam no astral - dimensão espiritual mais próxima da material - através das magníficas ocasiões do renascimento. Aqueles que demonstrassem endurecimento em suas atitudes negativas perante a humanidade Ahtilantê seriam retirados, gradativamente, à medida que fossem falecendo fisicamente, para um outro planeta que lhes seria mais propício, possibilitando que continuassem sua evolução num plano mais adequado aos seus pendores ainda primitivos e egoísticos.
Portanto, a última existência em Ahtilantê era vital, pois demonstraria, pelas atitudes e pelos pendores do espírito, se ele havia logrado alcançar um padrão vibratório satisfatório dos requisitos de permanência num mundo mais evoluído e pronto para novos vôos ou se teria que passar pela dura provação de um recomeço em planeta ainda atrasado.
Os governadores espirituais do planeta escolheram para coordenar esse vasto processo um espírito do astral superior chamado Varuna Mandrekhan, que formou uma equipe atuante em muitos setores para apoiá-lo em suas atividades. Um planejamento detalhado foi encetado de tal forma que pudesse abranger de maneira correta todos os aspectos envolvidos nesse grave cometimento. Diversas visitas ao planeta que abrigaria parte da humanidade de Ahtilantê foram feitas, e, em conjunto com os administradores espirituais desse mundo, o expurgo foi adequadamente preparado.
Ahtilantê era um planeta com mais de seis bilhões de habitantes e, além dos que estavam ali renascidos, existiam mais alguns bilhões de almas em estado de erraticidade. O grande expurgo abrangeria todos, tanto os renascidos como os que se demoravam no astral inferior, especialmente os mergulhados nas mais densas trevas. Faziam também parte dos passíveis de degredo os espíritos profundamente desajustados, além dos assassinos enlouquecidos, dos suicidas, dos corruptos, dos depravados e de uma corja imensa de elementos perniciosos.
Varuna, espírito nobilíssimo, que fora político e banqueiro em sua última existência carnal, destacara-se por méritos próprios em todas as suas atividades profissionais e pessoais, sendo correto, justo e íntegro. Adquirira tamanho peso moral na vida política do planeta que era respeitado por todos, inclusive por seus inimigos políticos e adversários em geral. Esse belo ser, forjado no cadinho das experiências da vida, fora brutalmente assassinado por ordem de um déspota que se apossara do império Hurukyan, um dos maiores daquele mundo.
Ahtilantê era um planeta muito maior do que a Terra e apresentava algumas características bem diferentes das do nosso lar atual. Sua gravidade era bem menor e sua humanidade não era mamífera, e sim, oriunda dos grandes répteis, que predominaram na pré-história Ahtilantê. A atmosfera de Ahtilantê era bem mais dulcificante do que a agreste e cambiante atmosfera terrestre. Tratava-se de um verdadeiro paraíso, um jardim planetário, amparado por avançada tecnologia.
As grandes distâncias eram percorridas por vimanas, aparelhos similares aos nossos aviões. Os meios de telecomunicação, avançadíssimos, permitiam contato tridimensionais em videofones com quase todos os quadrantes do planeta. Já existiam, também, outras invenções fantásticas, especialmente na área da medicina. Os ahtilantes estavam bastante adiantados no que diz respeito a viagens espaciais, pois já tinham colonizado suas duas luas. Porém, essas viagens ainda estavam na alvorada dos grandes deslocamentos pelo espaço sideral, relativamente aos que outras civilizações mais adiantadas, como as de Karion, já eram capazes de realizar. Karion era um planeta do outro lado da Via Láctea, de onde viria, através do plano espiritual, uma leva de grandes obreiros que muito ajudariam Varuna em sua árdua missão.
Contudo, a evolução moral dos ahtilantes muito deixava a desejar. Apresentavam as deficiências comuns às da humanidade de categoria média, nas quais se enquadram os seres humanos que superaram as fases preliminares da jornada evolutiva, sem terem alcançado, não obstante, as luzes da fraternidade plena.
Havia basicamente quatro raças em Ahtilantê, os azuis, os verdes, os púrpuras e os cinzas. Os azuis e verdes eram profundamente racistas, não tolerando miscigenação entre eles, acreditando que os cinzas eram de origem inferior, podendo ser utilizados da forma como desejassem. Naquela época, a escravidão já não existia, mas uma forma hedionda de servilismo econômico persistia entre as nações. Por mais que os profetas ahtilantes tivessem enaltecido a origem única de todos os espíritos no seio do Senhor, nosso Pai Amantíssimo, os ahtilantes ainda continuavam a acreditar que a cor da pele, a posição social e o nome ilustre de uma família eram corolários inseparáveis para a superioridade de alguém.
Varuna fora o responsável direto pela criação da Confederação Norte-Ocidental, que veio gerar novas formas de relacionamento entre os países membros e as demais nações daquele globo. A cultura longamente enraizada, originária dos condalinos, raça espiritual que serviu de base para o progresso de Ahtilantê, tinha influência decisiva sobre todos. Na promoção dos valores morais e das condições espirituais de seus habitantes, os governadores espirituais aproveitaram todas as ondas de choque: as físicas, como as suscitadas pelas guerras, revoluções e massacres; as culturais, como as proporcionadas por peças teatrais, cinema e literatura; e as de natureza telúrica, como as geradas por terremotos, inundações e outras catástrofes, de forma que pudessem levar os ahtilantes a modificarem sua forma de agir, pensar e ser. Aqueles cujo próprio martírio e testemunho do sofrimento alheio não foram suficientes para se renderem ao imperativo de profunda modificação interior foram deportados para um distante planeta azul, o qual os administradores espirituais daquele jardim, ainda selvático, chamavam de Terra.
Esse processo, que envolveu quase quarenta milhões de espíritos, trazidos como degredados para a Terra por volta de 3.700 a.C., foi coordenado por Varuna Mandrekhan e sua equipe multissetorial. Os principais elementos de seu grupo foram Uriel, uma médica especializada em psiquiatria, a segunda em comando nesse cometimento; Gerbrandom, uma alma pura, que atingira a maioridade espiritual em outro planeta e viera ajudar o degredo em Ahtilantê; e Vartraghan, chefe dos guardiões astrais que, em grande número, vieram ajudar Varuna a trazer os degredados. Além desses personagens, participaram do processo Radzyel, Sandalphon, Sraosa e sua mulher Mkara - espíritos que muito ajudariam os degredados -, e a belíssima figura de Lachmey, espírito do mundo mental de Karion, que, mais tarde, rebatizada como Phannuil, seria o espírito feminino mais importante para a evolução da Terra e que coordenaria vastas falanges de obreiros, em permanente labuta para a consecução dos desígnios dos administradores espirituais.
Os capelinos foram trazidos em levas que variavam de vinte mil a pouco mais de duzentas mil almas. Sob a direção segura e amorosa dos administradores espirituais, vinham em grandes transportadores astrais, que venciam facilmente as grandes distâncias siderais e que eram comandados por espíritos especializados em sua condução.
A Terra, naquele tempo, era ocupada por uma plêiade de espíritos primitivos, os quais serão sempre denominados terrestres nestes escritos, para diferenciá-los dos capelinos que vieram degredados para cá, a fim de evoluírem e fazerem com que outros evoluíssem. Urna das funções dos capelinos, aqui na Terra, era a de aceleradores evolutivos, especialmente no terreno social e técnico. Embora fossem a escória de Ahtilantê, eram mais adiantados do que os terrestres no que dizia respeito a níveis de inteligência, aptidão social e, naturalmente, sagacidade. Os terrestres, ainda muito embrutecidos, ingênuos e apegados a rituais tradicionais, pouco ou nada criavam de novo. Cada geração se apegava ao que a anterior lhe ensinara, atitude muito similar à em que vemos demorarem-se os nossos silvícolas, que estagiam comodamente no mesmo modo de vida há milhares de anos.
Havia entre os exilados um grupo de espíritos que, em Ahtilantê, se intitulavam de alambaques, ou seja, dragões. Esses espíritos, muitos deles brilhantes e de sagaz inteligência, eram vítimas de sua própria atitude negativa perante a existência, preferindo serem 'críticos a atores da vida'. Muitos deles se julgavam injustiçados quando em vida e, por causa desses fatos, aferravam-se em atitudes demoníacas perante os maiores. Esses alambaques tinham desenvolvido uma sociedade de desregramentos e abusos, sendo utilizados pela justiça divina como elementos conscientizadores dos seres que cometiam atos de caliginosa vilania.
Essa súcia era, todavia, filha do Altíssimo e, ainda que passível de deportação, deveria ser a artífice do exílio. Como dominava vastas legiões de espíritos embrutecidos na prática do mal, era mais fácil comandá-la do que aos guardiões do astral inferior, que não existiam em número suficiente para uma expedição expiatória dessa envergadura. Por causa disso, Varuna e seu guardião-mor Vartraghan foram até as mais densas trevas, numa viagem inesquecível, para convidar os poderosos alambaques a se unirem a eles e ajudarem as forças da evolução e da luz a triunfarem sobre eventuais espíritos recalcitrantes.
Varuna, através de sua atitude de desprendimento, de amor ao próximo e de integridade e justiça, foi acolhido, após algum tempo, pela maioria dos alambaques, como o grande mago, o Mykael, nome que passaria a adotar como forma de renovação que ele mesmo se impôs ao vir para a Terra. A grande missão de Mykael era não apenas a de trazer as quase quarenta milhões de almas capelinas para o exílio, porém, principalmente, fundamentalmente, levá-las de volta ao caminho do Senhor, totalmente redimidas.
Na grande renovação que Varuna e Lachmey promoveram, muitos foram os que trocaram de nome para se esquecerem de Ahtilantê e se concentrarem em sua incumbência no novo mundo, a Terra. Varuna tornou-se Mykael, o arcanjo dominador dos dragões. Lachmey passou a chamar-se Phannuil, a face de Deus, e Gerbrandom, Raphael. Vartraghan, também conhecido entre os seus guardiões como Indra, tornou-se Kabryel, o arcanjo. Vayu, seu lugar-tenente, adotou o nome de Samael e foi, muitas vezes, confundido com o mítico Lúcifer, o portador do archote, o carregador da luz.
O início da grande operação de redenção na Terra foi na Suméria, quando Nimrud, espírito capelino renascido, conseguiu, entre atos terríveis e maldades tétricas, implantar a primeira civilização em Uruck. Os alambaques, entretanto, que tinham não só a missão de trazer os degredados como também a de guiá-los, estavam excessivamente soltos, o que faria com que Mykael ordenasse a alteração dos padrões de comportamento dos dragões para fazê-los serem não somente guias de lobos - chefes de matilhas - como também modificarem seu íntimo a fim de se tornarem cordeiros de Deus.
Em razão da existência do fértil vale criado pelo transbordamento de dois rios irmãos, o Tigre e o Eufrates, e de enormes facilidades para desenvolver uma sociedade em que a agricultura fosse a pedra angular, ficou estabelecido, no grande planejamento, que a Suméria seria o primeiro lugar de assentamento desses espíritos. Outros locais foram incluídos também no programa de transferência dos capelinos, para que a sua vinda influenciasse várias regiões do globo, tais como a Europa, influenciada, inicialmente, pelos celtas, e a índia, que abrigou esses seres no vale do Hindu. Posteriormente, seria a vez dos outros povos indo-europeus, e, no extremo oriente, a da Tailândia e a da China.
Uma das regiões que se tornaria de suma importância para o desenvolvimento da cultura, tecnologia e civilização mundiais seria a compreendida pelo Egito, outro local que fora escolhido para a imersão na matéria dos espíritos capelinos. Seriam nessas longínquas plagas que essas almas conturbadas estabeleceriam uma civilização monumental, de proporções absolutamente grandiosas.
Por volta de 3.600 a.C., os espíritos superiores determinaram que os alambaques levassem para aquelas plagas, com o intuito de desenvolverem o Kemet, vários grupos de sumérios. Alguns desses grupos foram dizimados pelo caminho e outros foram desviados, motivo pelo qual acabaram estabelecendo-se em outros lugares. No entanto, três deles chegaram ao vale do Iterou e fundaram uma civilização, gradativamente, sem violência ou conquistas sangrentas. Um dos grupos se localizou em Ahmar, perto de onde está a cidade que se conhece hoje pelo nome de Cairo. Os outros dois se instalaram no sul e fundaram Nubt, conhecida hoje como Naqada.
Durante um largo período de tempo, conhecido como a Era dos Deuses, os capelinos implementaram alterações estruturais, tecnológicas e, sobretudo culturais que, fundindo-se com os milenares e primitivos costumes hamitas, vieram a constituir a famosa civilização egípcia. O grupo de Ahmar fundou as cidades de Perouadjet, também conhecida como Buto, e Zau, conhecida como Sais. Enquanto isto, no sul, os dois grupos fundidos de sumérios fundariam a cidade de Ouaset, também conhecida pelo nome grego de Tebas.
Muitos dos capelinos degredados ficaram famosos por seus atos, que se tornaram lendas dessa época. Dois deles foram Aha Harakty, mais conhecido como Rá ou Ré, e seu pai, Ptah, que se notabilizou por suas obras de contenção e desvio do rio Nilo. Além deles, os integrantes de um enorme grupo de capelinos degredados tornaram-se conhecidos como deuses da antigüidade, entre eles Amon, o lugar-tenente de Rá. No entanto, ninguém se tornou mais conhecido e amado pelo povo de Kemet do que Osíris.
Ele foi rei do Kemet e, durante sua profícua administração, o povo pobre e abandonado, os felás, teve a oportunidade de possuir um pedaço de terra para cultivar, além de receber subsídios, ensinamentos e investimentos na primeira grande reforma agrária do mundo. Era um capelino que viera em missão sacrificial junto a Isis, sua eleita do coração e futura esposa e rainha. O amor desses dois seres seria conhecido no mundo inteiro como a lenda de Osíris e Isis. Infelizmente, essa bela história de amor terminou tragicamente, pela vilania de seu meio-irmão, Seth, o terrível, que, na tentativa de assassinar Osíris, levou-o à tetraplegia, após desfechar-lhe um golpe na nuca. Seth, sob a influência de um alambaque chamado Garusthê-Etak, e de seu braço-direito, Aker, conturbaria o reinado com uma guerra civil sangrenta, que terminaria por dividir o Kemet em três reinos: dois no delta, chamados de Baixo Egito, com capitais em Perouadjet e Djedu, e um no Alto Egito, com capital em Teni.
Os administradores espirituais determinaram que o Kemet seria coordenado por Kabryel e que os alambaques teriam papel preponderante no desenvolvimento daquela civilização. Assim, com muitas lutas, marchas e contramarchas, a cultura foi implantada no Kemet. Muitos capelinos renasceriam ali e se tornariam deuses, como Rá, Ptah, Sakhmet, Tefnu e Osíris, este último o mais doce dos seres daquela conturbada era dos deuses. Após terríveis momentos de guerra fratricida, o Kemet foi desmembrado, e se tornou As Duas Terras.
Seria preciso que aparecessem heróis truculentos como Zekhen, o Rei Escorpião, e Nârmer, seu filho e sucessor, para unificarem novamente aquilo que, Tajupartak, ex-alambaque, na existência de Aha, unira. Aventuras repletas de guerras, combates, traições e ardis, finalmente, levaram à união do Kemet - o Egito - numa grande nação de monumentos tão portentosos que nem o tempo foi capaz de apagar.
Os espíritos superiores tinham, entretanto, outros planos para implementarem a civilização na Terra, e seria por meio de grandes migrações que isso seria feito.
Mesmo depois de dois mil anos do degredo dos capelinos no planeta Terra, a civilização ainda estava estagnada. Esta havia dado um salto inicial, mas, após certo tempo, tornara-se novamente imobilista. Os administradores espirituais iniciaram, então, uma série de movimentos migratórios na Terra, com o intuito de mesclarem povos, raças e, sobretudo, culturas e tecnologias. Assim, iniciou-se, por volta de 1.800 a.C., um enorme movimento migratório em todo o planeta, o qual alcançou todos os rincões deste globo, inclusive a própria América, ainda não descoberta pelos europeus, mas já habitada pelos povos de origem mongol, por meio dos quais os espíritos superiores ajudaram a erguer grandes civilizações, usando os alambaques capelinos. Foram eles que construíram as pirâmides do novo continente.
Na Eurásia, os povos foram movimentados pelos préstimos de espíritos renascidos com grandes missões, como Rhama, na Índia, e vários outros - que, aliás, a história se esqueceu de registrar -, além de guias espirituais, que inspiravam os povos a seguirem por certos caminhos. Para acelerar a migração, vários povos foram submetidos a alguns fenômenos de ordem natural, como secas, terremotos e inundações, que os obrigavam a deslocaram-se.
Washogan fora um guardião especializado nas hostes de Vayu e, sob a influência de Orofiel, braço direito de Mitraton, recebeu a incumbência de guiar uma pequena e esfacelada tribo do vale do Kuban, no Cáucaso, até Haran, no norte da Mesopotâmia. Assim o fez e tornou-se conhecido entre os hurritas, os descendentes de Hurri, como Yahveh - Eu sou - deus da guerra, da vingança, das emboscadas e dos trovões. Com o decorrer dos tempos, Washogan renasceu e tornou-se Kalantara, uma sacerdotisa de Shiva, exatamente no interregno em que Rhama invadia a decaída região do rio Indo, no qual antes florescera a civilização sindhi, de Harapa e Mohenjo-Daro. Alguns séculos depois, tornar-se-ia um guerreiro e político hitita, de nome Pusarma, e morreria de forma violenta e prematura.
Enquanto isso, os espíritos superiores, monitorando a evolução terrestre, depararam em Avram um fanático e empedernido seguidor do deus Yahveh. Usando o nome do deus hurrita, os espíritos superiores o transformaram numa divindade única e superior aos demais deuses da região. Sob a coordenação de Orofiel e pela utilização de vasto grupo de espíritos comandados diretamente por Sansavi, foram incutindo nas mentes das almas a idéia de um Deus único.
Avram, depois chamado de Avraham, deu origem a uma grande quantidade de filhos, que se espalhou pela região de Canaã e localidades vizinhas. Itzhak, seu filho, deu origem a gêmeos, Esaú e Yacob, e este último teve doze filhos que, junto com os hicsos, foram para o Kemet - Egito. Yacob mudaria seu nome para Israel - aquele que luta com Deus -, e um dos seus filhos, Yozheph, notabilizou-se como Tsafenat-Paneac, foi tati - primeiro-ministro - do faraó hicso Khian, e ajudou a debelar uma terrível seca que assolou a região.
A tribo de Israel, entretanto, cometeu um grave crime ao matar os indefesos habitantes de Siquém e, com isto, perdeu o apoio direto de Sansavi, que recebeu ordens de Orofiel de abandoná-los ao seu próprio destino. Passariam a ser acompanhados de guias-mentores normais, e não mais de um grupo tão especializado como aquele que fora comandado por Sansavi. Tendo ido para o Kemet, os descendentes de Israel formaram uma grande tribo, que ficou conhecida na história como os hebreus.
Os administradores terrestres voltaram a movimentar as forças espirituais e, assim, Ahmose, neto do faraó Ramsés II, tornou-se Moschê, o grande libertador do povo hebreu, o qual o conduziu para o deserto do Sinai, onde, naquelas longínquas plagas, moldou, como num cadinho ardente, um novo povo. Esse vasto processo foi coordenado por Orofiel, o belo arcanjo de Mitraton, que assumiu a operação astral desse êxodo. Após a morte de Moschê, seu sucessor, Yoshea ben Nun, mais conhecido entre nós como Josué, deu continuidade ao processo de conquista de Canaã, e para isso foram necessários muitos anos de guerras e cruentas dominações a fim de que seu povo prevalecesse naquele pedaço de terra.
Seiscentos anos se haviam passado desde então e era chegado o tempo de novas e grandes mudanças, e os espíritos novamente se reuniram para determinarem mais algumas ações em prol da humanidade.
Um pouco antes do renascimento do divino mensageiro, a Meso-américa e outros lugares ainda primitivos começaram a receber grandes quantidades de espíritos capelinos e terrestres ainda endurecidos na senda da perversão e do ódio. Eles renasceriam em situação terrível, e iniciaram uma civilização que construiria grandes pirâmides e cidades monumentais. Seria uma civilização cruel, que mataria dezenas de pessoas, ao mesmo tempo, em rituais sangrentos, para louvar estranhos e perturbadores deuses.
Os espíritos superiores estavam fazendo um expurgo parcial, especialmente na região oriental. Os elementos mais perigosos e ainda atrasados eram enviados para estes locais para sofrerem um processo mais violento de remissão. Os povos mais belicosos, como os assírios, estavam sendo expurgados para a Meso-américa, e muitos deles haviam renascido na Judéia, obtendo, com isto, uma oportunidade única de aprimoramento. Muitos saberiam aproveitar os ensinamentos do doce mensageiro, mas outros teriam que aprender os caminhos do bem através de sofrimentos terríveis em distantes plagas, o que viria a acentuar ainda mais os traumas de seu exílio primordial quando foram trazidos degredados de Ahtilantê.
Os espíritos superiores planejaram a vinda de um excelso mensageiro, que nasceu em Beit Lechem, sendo filho de Yozheph ben Matan e Miriam bat Yoachim. No momento do parto, o casal foi surpreendido com o nascimento de gêmeos idênticos, que foram chamados de Yeshua e Yehudá.
A família de Yeshua foi perseguida por Herodes o grande, rei da Judéia, e teve que se esconder em Alexandria. Naquele lugar, eles participaram ativamente da comunidade dos terapeutas. Esse grupo de judeus alexandrinos era muito similar aos essênios, com ensinamentos e rituais muito parecidos. No entanto, eles haviam sido influenciados pelos neopitagóricos e acreditavam na reencarnação como um processo de aprimoramento e transformação de potência em ato. Esta doutrina não acreditava que os espíritos pudessem renascer entre animais e vegetais, como era a doutrina da metempsicose, cultuada pelos gregos e indianos, mas tinham como pedra angular que o espírito sempre progride, mesmo quando comete os piores desatinos, pois todo mal é transformado em bem num processo multissecular de aprendizado. Tal doutrina era restrita aos iniciados do último grau, pois, pela sua complexidade, afastava os menos aptos, assim como a plebe ignorante. Era, pois, uma doutrina esotérica de elevado teor, de que tanto Yeshua como Yehudá tomaram conhecimento.
Yeshua assim como Yehudá estudaram, em classes organizadas, a história, a geografia, a economia, a filosofia, além de aprenderem o aramaico, o copta, o hebraico antigo e o grego. Yeshua foi guindado a classes mais avançadas devido a sua precocidade, mas Yehudá não ficava atrás, mesmo sendo ofuscado pela brilhância de seu gêmeo. O relacionamento entre os irmãos era o melhor possível, sendo que, com o decorrer dos anos, podia-se notar uma extraordinária simbiose psíquica entre os dois.
Yehudá também era excepcionalmente dotado, mas não aparecia tanto quanto Yeshua. Ele também aprendeu com os terapeutas a ler e a escrever, além dos rudimentos da matemática, da astrologia, da economia, da geografia e da filosofia. Em relação às demais pessoas de sua época, ele era muito avançado, mas sempre ficou à sombra da luminescência de Yeshua. Ele sempre preferiu os bastidores do que a luz da ribalta. Seria de grande importância para a difusão posterior da doutrina do irmão.
Com treze anos, a família retornou do Egito, mas o perigo das perseguições continuava e eles enviaram Yeshua de volta a Alexandria para continuar seus estudos com os terapeutas e Yehudá foi enviado para Caná, na casa de Cleophas, onde participou ativamente da administração do negócio do tio. Enquanto isto, a família se escondia em Nazareth, na Galiléia.
Yeshua ficou em Alexandria até os vinte e três anos, quando voltou para casa em Nazareth. No entanto, seus irmãos ressentiram-se de sua presença, já que o viam como um estrangeiro. Deste modo, sob o patrocínio paterno, Yeshua afastou-se novamente, indo morar com Yozheph de Arimatéia, seu tio por afinidade.
Ele foi levado até a Parthia, antiga Pérsia, onde reencontrou Balthazar e Melchior, dois dos três magos que o haviam ajudado a ir para Alexandria quando da perseguição de Herodes. Lá Yeshua curou o rei Spalirizes, ganhando fama, e abrindo as portas das Torres de Silêncio, em Pasargadae, onde Melchior era o sumo sacerdote. Durante alguns anos, ele viajou pela Parthia onde praticou curas e tornou seu cognome de Issa, pois assim ele era conhecido, um grande mito.
Sob o patrocínio de Melchior, ele foi enviado até Takshasila, onde reencontrou o terceiro mago que o visitara quando ainda infante, chamado de Vindapharna, mais tarde conhecido como Gaspar. Com o monge indiano Udayana, eles ficaram em Takshasila por alguns meses até que puderam viajar até Pataliputra, na região de Maghada, na Índia.
Naquela esplendorosa cidade, ele conheceu o budismo e o jainismo, além de fixar os conhecimentos védicos, que aprendera em Takshasila, assim como também conhecera, em Pasargadae, na Parthia, os ensinamentos de Zarathustra, o profeta persa de Ahura Mazda - o Sábio Senhor. Naquela localidade, ele fez muitas curas e tornou seu nome Issa célebre, mas acabou partindo, devido a perseguições religiosas.
Retornando a Nazareth, descobriu que seu pai morrera e que Yochanan, seu primo, era o novo Messias de Israel. Ficou pouco tempo em casa e partiu para as margens do Jordão, onde se uniu ao grupo do famoso batista.
Tornou-se um discípulo de Yochanan, tendo feito grandes curas e reunido um grupo de parentes, que viam nele um homem de estofo superior ao próprio batista. Viajou pelo interior, batizando como o fazia seu primo e com isto granjeou inimigos entre os discípulos do profeta do Jordão.
Foi batizado por Yochanan, a seu pedido, e no momento do batizado, ambos tiveram uma revelação surpreendente, a de que Yeshua era o esperado Messias. Ele, após o batizado, retira-se do grupo, retorna a Nazareth, sempre acompanhado de seu gêmeo Yehudá, apelidado de Tauma, e, após uma longa semana de meditação, planeja sua missão em detalhes, e decide partir para Cafarnaum para iniciar o seu apostolado.

(Prólogo JESUS, O DIVINO MESTRE - OS ANOS DE PREGAÇÃO E MARTÍRIO - Albert Paul Dahoui)